quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Artes e natureza

Normalmente nos referimos à natureza como o que existe no nosso planeta
que não é humano, ou mesmo como era antes de termos surgido.  Quase semelhantemente,
a natureza poderia se compreendida como sendo o mundo com nossa presença mas
sem nossa influência, como tecnológica.  Como tecnologia é intrinsecamente humana, e
aparece logo no início da humanidade, as duas definições são praticamente equivalentes.

Grande então deve ser o nosso respeito pela natureza, da qual somos filhos, dependentes,
herdeiros e guardiões (nem sempre tão responsáveis).  Seria assim inevitável que muito da
nossa arte refletisse os mais variados aspectos do mundo natural.  Enquanto as artes orientais
foram sempre fortemente relacionadas à natureza, acredito que nós no ocidente tenhamos
prestado relativamente pouca atenção a como a natureza influencia de forma intensa nossas
manifestações artísticas.  De fato, trata-se de assunto raramente abordado pelas modernas
teorias artísticas.

Em boa parte, a natureza representa para nós um referencial eterno, do puro, do bom,
do belo, do sagrado e do verdadeiro, no qual podemos nos refugiar em busca de inspiração
e tranquilidade.  Neste sentido, a natureza serve mesmo como uma mãe para nós, sempre
acolhedora, compreensiva, e pronta a nos confortar com beleza e tranquilidade.

Com a concentração da humanidade nas cidade, as artes passaram a ser um meio de trazer
a natureza de volta ate nós, como antídoto a todos as tensões e limitações da vida urbana,
como falta de espaço, poluição, violência, dentre muitas outras coisas.  Esta dicotomia
cidade/natureza é uma das chaves para entender como a natureza tem permeado nossas
artes.

Inicialmente, as artes buscavam retratar a natureza de forma fiel, realista, principalmente
através de paisagens, de forma a proporcionar para a sociedade urbanizada uma experiência
real de reaproximação com o mundo natural.   Existem indícios de paisagens dentre as
mais antigas civilizações, com destaque para os afrescos encontrados nas cavernas, e depois
em Pompéia.  Invariavelmente, tais paisagens pintadas são encontradas dentro de ambientes
humanos, não em meio à natureza.  Seriam assim como aquários ou copos de água tomada
dos rios e lagos.

Na literatura e poesia, muito frequentes foram as referências diretas à natureza no arcadismo,
romantismo e classicismo.  Com a popularização da fotografia, no século XIX,
a arte da natureza tomou rumo mais fantasioso e abstrato, como no caso do impressionismo,
que olhou intensamente a natureza com outros olhos.  Permanece um ponto de muito debate
até que ponto a música reflete a natureza.



Arte e verdade

Arte de verdade.  Arte e verdade.  Arte é verdade.
Para mim, apenas três maneiras de dizermos a mesma coisa.

Surpreendente como possa parecer, as artes possuem muito em comum com a
verdade, assim como com a ilusão.  Poderíamos até dizer que a arte é uma
forma de transformar verdade em ilusão, e ilusão em verdade.  Verdade, por
sua vez, relaciona-se diretamente com realidade (e ilusão com ficção), pois tudo
o que é real é verdadeiro e vice-versa.

Mas, se a ficção é o oposto da verdade, um tipo de ilusão, porque então
utilizá-la?

A ficção é utilizada em artes por ambos artista e receptor como uma forma
de libertação ou desprendimento da rotina e limitações do dia a dia.
Assim, conseguimos brincar de deus e construir mundos e situações imaginadas
das mais surpreendentes e variadas, que embora sendo irreais, servem como
um modelo da realidade e de como podemos interagir com ela.

Se pensarmos mais a fundo, acabamos por perceber que toda criação humana
nunca é garantida ser verdadeira, pois depende da nossa percepção e relato,
que são necessariamente incompletos e sujeitos a erros e ideologias.  Então, o que
importa a nível individual é a nossa percepção de quanto alguma coisa é real.

Como a beleza e a surpresa, cada obra de arte também possui seu mérito próprio
no que se refere à sua realidade.  Em geral, uma produção artística será tanto mais
efetiva quanto maior for a sensação de realidade que nos proporcionar durante sua
apreciação.  Importante observar que mesmo no caso de obras muito fantásticas e
abstratas, o sucesso das mesmas ainda depende de fazer com que tal ficção seja por
nós percebida como algo real, pois parte da nossa apreciação depende de nos sentirmos
imersos na obra de arte.  Colocado de outra forma, emocionamos mais fortemente
pelo que nos parece, de alguma forma, real ou possível.

Claro está que a sensação de realidade em si não garante o sucesso da obra.
Alguns artistas, como no caso de Marcel Duchamp e seus "ready-mades", às vezes
apresentam objetos reais como se fossem arte.   Ao mesmo tempo, o realismo procurou
produzir ficção que fosse o mais fiel à realidade possível.  E, a fotografia, produz arte
diretamente da realidade.  Boa parte da filosofia dos movimentos artísticos relaciona-se
a como essa tensão entre ficção e realidade é tratada.

Vamos ilustrar a importância da realidade em arte voltando ao famoso quadro
Noite Estrelada de van Gogh, que já usamos para discutir a surpresa nas artes.
Nesta peça, a surpresa vem da forma intensa e irreal em que o céu é pintado.
Mas, note que apesar de toda a sua artificialidade o percebemos, assim como as
outras partes deste impressionante quadro, como se fossem muito reais.

Em muitas grandes obras de arte, é esta fusão entre realidade e ficção que
nos arrebata de uma forma particularmente intensa.