quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Arte e verdade

Arte de verdade.  Arte e verdade.  Arte é verdade.
Para mim, apenas três maneiras de dizermos a mesma coisa.

Surpreendente como possa parecer, as artes possuem muito em comum com a
verdade, assim como com a ilusão.  Poderíamos até dizer que a arte é uma
forma de transformar verdade em ilusão, e ilusão em verdade.  Verdade, por
sua vez, relaciona-se diretamente com realidade (e ilusão com ficção), pois tudo
o que é real é verdadeiro e vice-versa.

Mas, se a ficção é o oposto da verdade, um tipo de ilusão, porque então
utilizá-la?

A ficção é utilizada em artes por ambos artista e receptor como uma forma
de libertação ou desprendimento da rotina e limitações do dia a dia.
Assim, conseguimos brincar de deus e construir mundos e situações imaginadas
das mais surpreendentes e variadas, que embora sendo irreais, servem como
um modelo da realidade e de como podemos interagir com ela.

Se pensarmos mais a fundo, acabamos por perceber que toda criação humana
nunca é garantida ser verdadeira, pois depende da nossa percepção e relato,
que são necessariamente incompletos e sujeitos a erros e ideologias.  Então, o que
importa a nível individual é a nossa percepção de quanto alguma coisa é real.

Como a beleza e a surpresa, cada obra de arte também possui seu mérito próprio
no que se refere à sua realidade.  Em geral, uma produção artística será tanto mais
efetiva quanto maior for a sensação de realidade que nos proporcionar durante sua
apreciação.  Importante observar que mesmo no caso de obras muito fantásticas e
abstratas, o sucesso das mesmas ainda depende de fazer com que tal ficção seja por
nós percebida como algo real, pois parte da nossa apreciação depende de nos sentirmos
imersos na obra de arte.  Colocado de outra forma, emocionamos mais fortemente
pelo que nos parece, de alguma forma, real ou possível.

Claro está que a sensação de realidade em si não garante o sucesso da obra.
Alguns artistas, como no caso de Marcel Duchamp e seus "ready-mades", às vezes
apresentam objetos reais como se fossem arte.   Ao mesmo tempo, o realismo procurou
produzir ficção que fosse o mais fiel à realidade possível.  E, a fotografia, produz arte
diretamente da realidade.  Boa parte da filosofia dos movimentos artísticos relaciona-se
a como essa tensão entre ficção e realidade é tratada.

Vamos ilustrar a importância da realidade em arte voltando ao famoso quadro
Noite Estrelada de van Gogh, que já usamos para discutir a surpresa nas artes.
Nesta peça, a surpresa vem da forma intensa e irreal em que o céu é pintado.
Mas, note que apesar de toda a sua artificialidade o percebemos, assim como as
outras partes deste impressionante quadro, como se fossem muito reais.

Em muitas grandes obras de arte, é esta fusão entre realidade e ficção que
nos arrebata de uma forma particularmente intensa.

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