Em última instância, buscamos as artes porque elas nos causam interesse,
satisfação e prazer. Parte desta atração vem do mérito estético de uma
obra, ou seja, o quão bela ela se apresenta a cada um de nós.
Entretanto, outros fatores contribuem também para nossa apreciação
das obras de arte. Surpresa é um deles.
Curiosamente, gostamos de ser surpreendidos, exceto quando por coisas
ruins. O prazer da surpresa tem um aspecto lúdico, não sendo por acaso
que as crianças gostam ainda mais da surpresa (quem, quando tão novo, não
brincou de esconde-esconde ou adivinha?). O inesperado pode nos aliviar
momentaneamente da rotina do dia a dia, de nossas preocupações, divertindo
e liberando.
Além disso, surpresas muitas vezes envolvem descobertas, por exemplo no
sentido de ver coisas antigas reinventadas. Um bom exemplo é a metáfora
poética, como em "as asas douradas do amanhecer".
Em tais casos, a surpresa é acompanhada de um aprendizado, do prazer
da compreensão da mensagem, da descoberta, da solução de um pequeno
quebra-cabeça. Por exemplo, na metáfora acima, não apenas identifica-se
a aurora pelo dourado, mas o uso de "asas" sugere a aventura istigante que
cada novo dia nos traz, talvez evocando o voo livre de um pássaro no mesmo
céu em que se desenha o nascer do sol. Observe que a surpresa nos transforma
de meros receptores - via interpretação - em criadores, no sentido da descoberta
e participação ativa que se torna necessária na compreensão da mensagem.
Então, de certa forma, a surpresa possui um mérito estético próprio, no
sentido de nos agradar em graus diferentes. A própria criatividade pode
ser entendida como uma inovação contendo elevado mérito (por exemplo,
estético). Na verdade, é interessante lembrarmos que o feio ou o ruim
também podem nos surpreender. Algumas obras de arte, desde tempos
atrás, têm utilizado este recurso de surpreender pelo choque.
Tais produções podem ser entendidas como obras de arte em consequência
não propriamente do seu mérito estético, mas do seu potencial em surpreender
e chocar de uma forma controlada e "aceitavelmente" rude. São assim
um bom exemplo de que beleza e surpresa se complementam até mesmo de
forma independente na apreciação da qualidade artística.
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