quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Artes, surpresa, criatividade

Em última instância, buscamos as artes porque elas nos causam interesse,
satisfação e prazer.   Parte desta atração vem do mérito estético de uma
obra, ou seja, o quão bela ela se apresenta a cada um de nós.

Entretanto, outros fatores contribuem também para nossa apreciação
das obras de arte.  Surpresa é um deles.

Curiosamente, gostamos de ser surpreendidos, exceto quando por coisas
ruins.   O prazer da surpresa tem um aspecto lúdico, não sendo por acaso
que as crianças gostam ainda mais da surpresa (quem, quando tão novo, não
brincou de esconde-esconde ou adivinha?).   O inesperado pode nos aliviar
momentaneamente da rotina do dia a dia, de nossas preocupações, divertindo
e liberando.

Além disso, surpresas muitas vezes envolvem descobertas, por exemplo no
sentido de ver coisas antigas reinventadas.   Um bom exemplo é a metáfora
poética, como em "as asas douradas do amanhecer".

Em tais casos, a surpresa é acompanhada de um aprendizado, do prazer
da compreensão da mensagem, da descoberta, da solução de um pequeno
quebra-cabeça.   Por exemplo, na metáfora acima, não apenas identifica-se
a aurora pelo dourado, mas o uso de "asas" sugere a aventura istigante que
cada novo dia nos traz, talvez evocando o voo livre de um pássaro no mesmo
céu em que se desenha o nascer do sol.  Observe que a surpresa nos transforma
de meros receptores - via interpretação - em criadores, no sentido da descoberta
e participação ativa que se torna necessária na compreensão da mensagem.

Então, de certa forma, a surpresa possui um mérito estético próprio, no
sentido de nos agradar em graus diferentes.  A própria criatividade pode
ser entendida como uma inovação contendo elevado mérito (por exemplo,
estético).  Na verdade, é interessante lembrarmos que o feio ou o ruim
também podem nos surpreender.  Algumas obras de arte, desde tempos
atrás, têm utilizado este recurso de surpreender pelo choque.

Tais produções podem ser entendidas como obras de arte em consequência
não propriamente do seu mérito estético, mas do seu potencial em surpreender
e chocar de uma forma controlada e "aceitavelmente" rude.  São assim
um bom exemplo de que beleza e surpresa se complementam até mesmo de
forma independente na apreciação da qualidade artística.

Artes e estética

Uma coisa certa sobre obras de artes é que gostamos mais de algumas
do que de outras, a ponto de defendemos apaixonadamente certas
peças, enquanto não entendemos porque algumas pessoas apreciam
certas "coisas".

Assim, se existe uma gradação na nossa apreciação das artes,
as respectivas obras possuem um mérito próprio, que reflete a
beleza e interesse que elas nos causam.  Este grau de atração está
relacionado principalmente às qualidades *estéticas* das obras de arte.

Em princípio, poderíamos considerar que uma certa obra de arte é bela
ou agradável em parte porque segue certas regras ou *cânones*
pré-estabelecidos.  Seria o conjunto desses cânones que caracterizaria,
de maneira mais definida, os vários movimentos artísticos.

Por exemplo, o barroco usava contrastes e movimentos, enquanto
o classicismo buscava o retorno à natureza e uma semelhança
acentuada e mais estática com o mundo real.  Embora os cânones
não sejam suficientes para garantir a qualidade estética de uma obra, eles
estabelecem padrões estáveis de referência para a apreciação
comparativa da produção ao longo de um determinado movimento
artístico.

A estética muda não apenas ao longo do tempo, mas também
ao longo do espaço: o que é largamente apreciado hoje no Brasil
é muito diferente do que se gostava no Japão no século XII.

Claro, a apreciação também varia muito de uma pessoa para outra,
mas ainda assim existe, em cada sociedade a cada momento, gostos
predominantes compartilhado por muitos.  Tal mérito estético das obras
permite que sejam comparadas tanto por um mesmo artista ao longa da
sua carreira, como dentre variados artistas e estilos.  Em última instância,
é a busca de obras cada vez melhores que motiva e impulsiona tanto os
criadores como os receptores das artes.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Artes e Cia.

Uma forma interessante de começarmos a entender um conceito tão
fundamental como as artes é listar, numa breve tempestade cerebral,
outros conceitos relacionados que nos vêm à mente.  Convido o leitor
a elaborar uma tal lista agora, antes que apresente a minha.

Eis minha lista (desordenada):

                               beleza (e estética),
                               criatividade (e surpresa),
                               verdade (e fantasia),
                               natureza (e artifício),
                               comunicação (e sociedade),
                               prazer (e interesse),
                               abstração (e objetividade),
                               descoberta (e esquecimento),
                               diversidade (e padronização),
                               permanência (e transitoriedade),
                               história (e revisão), ...

A lista não tem fim, e fica logo claro que as artes relacionam-se
com tantas outras coisas bastantes diversas entre si.  Ao mesmo tempo,
essas coisas parecem convergir para o próprio conceito de arte.

Nos próximos posts, vamos explorar diversos desses relacionamentos
em busca de uma possível definição do que seriam as artes nesta
perspectiva pessoal.

Ah, as artes...

O que são as artes?  Ah, todos sabemos!  A Mona Lisa, as sinfonias de Beethoven,
os romances de Machado de Assis...

Mas, esses são apenas exemplos, não as artes em si.   Como tantos outros
conceitos, sabemos muito bem reconhecer o que as artes são, embora sejamos
incapazes de defini-los.    Parte desta dificuldade vem do fato de estarmos
acostumados com tais conceitos desde jovens, e não termos ainda tentado descobrir
de uma forma mais crítica e profunda o que realmente significam para nós.

Numa primeira instância, podemos consultar um dicionário ou a WWW,
encontrando convenientemente uma definição pronta, já pensada por alguma
outra pessoa.   Entretanto, se buscarmos não uma, mas diversas definições, logo
notaremos que não existe muito acordo entre elas (você pode verificar isso
facilmente fazendo uma busca na WWW por "arte definição").  Então, qual
das definições estaria correta?   Ao lê-las, poderemos encontrar algumas com
as que mais simpatizamos, e talvez combiná-las numa nova, que pareça melhor
adaptar-se ao que sentimos.

De fato, a busca pela nossa própria definição nos motiva a pensar e participar
ativamente, combinando conceitos e criando novas idéias, aprendendo mais sobre
o mundo e, mais importante, sobre nós mesmos, levando até mesmo à uma revisão
do que pensávamos acreditar ou conhecer.

Neste blog, pretendo discutir diversas perspectivas relacionadas às artes, para
mim a mais humana, mágica e socializante das atividades.